Estou bem perto de completar meu trigésimo aniversário consecutivo, algo que me deixa feliz e ao mesmo tempo um pouco nostálgico. Vi o mundo pela primeira vez lá nos idos do já distante ano de 1991 e os automóveis daquela época são um bocado diferentes, até porque, desde então, muita coisa interessante passou a rodar por aqui.
Os mais atentos à história sabem que o Brasil permaneceu fechado às importações regulares de automóveis entre os anos de 1976 até 1990, época em que a liberação trouxe aquela euforia (e certo desespero) no mercado. Ganhou o consumidor, que pode ter acesso às novidades (desde que fossem adequadas às nossas realidades de piso, logística de distribuição de peças de reposição, mão de obra qualificada e combustível) e viu paulatinamente a melhoria dos veículo aqui produzidos (e muitas pequenas fabricantes não aguentaram a terrível concorrência).
Junto dos Mercedes-Benz e BMW (os mais óbvios importados daqueles tempos) apareceram outras marcas, uma especial um tanto curiosa: a Lada. Oriunda da então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS - se você não conhece, vá ler mais sobre geopolítica e história, é importante, viu?), a fabricante, que em sua terra se chamava VAZ (sigla russa que significa algo como "Fábrica de Automóveis do Rio Volga), pensou que se daria bem por aqui e logo nomeou um importador oficial para trazer ao Brasil uma linha de veículos.
Um deles - o que mais vi na época - era o Laika (a simpática cachorrinha sem raça definida que foi o primeiro ser vivo a sair da órbita terrestre), derivado diretamente do Fiat 124, projeto italiano entregue à VAZ em um interessante acordo comercial feito na década de 1960. Não era um carro essencialmente russo, talvez por isso nos lembrava tanto os carros europeus a que estávamos acostumados, mas logo veio a fama de um produto russo e robusto, acompanhada de um precinho bem camarada, até mesmo inferior àquele praticado pela Fiat nacional para vender o Mille.
A novidade russa (ou seria "italo-soviética"?) foi avaliada por Cláudio Carsughi para a edição n. 64 da revista Oficina Mecânica e do preciso relato podemos ter uma boa ideia da primeira impressão deixada pelo sedã de quatro portas:
Além do Laika sedan, devemos recodar que a Lada trouxe a versão perua (que vendeu muito pouco), o modelo Samara e o Niva, este último um jipe valente e bem vocacionado ao fora de estrada. Pena que os veículos, apesar de robustos, sofreram com sérios problemas de corrosão, inadequação ao combustível local (esqueceram - ou não quiseram fazer - da necessária adaptação da carburação à nossa gasolina com álcool anidro) e a crônica falta de peças da rede autorizada.
Basta lembrar que a Quatro Rodas testou um Samara por 60.000km e diversos problemas surgiram (até mesmo a troca por DUAS VEZES do propulsor), um desastre completo. Junte tudo isso ao inesperado aumento da alíquota de imposto sobre o valor da importação e podemos entender o motivo pelo qual os Lada sumiram daqui em 1995... Uma pena, porque robustez não faltava aos Lada. Ao menos era o que parecia lá naquele já distante ano de 1991.