Num domingo desses, não faz tanto tempo, voltava para casa pela BR-101 depois de uma rápida viagem para o sul; a noite reinava, céu claro sem ameaça de chuva, poucos carros na pista (apesar de alguns com faróis desregulados e o par de milhas/neblina ligados sem necessidade, o que pessoalmente me irrita muito, tenho ganas de martelar esses faróis usados incorretamente, em noite clara, pra ofuscar os pobres coitados que vão à frente) e o vento morno deslizando pela lataria do Uno.
Depois de uma curva começou a surgir um par de luzes vermelhas, que cresciam aos poucos enquanto mantinha a velocidade constante (é, eu tenho hábito de andar constante) até o ponto em que poderia identificar. Pensei em uma dúzia de hipóteses até acertar que era um Kadett. Sim, um Kadett, estão ficando raros e ainda mais em uso numa estrada, que bom ver um veículo interessante em uso, contando histórias e servindo o seu propósito original.
Mais perto, mas não tanto (sim, distância de segurança é algo que respeito), percebi que era um Kadett de chapas pretas e pintura prata. Era um Kadett Turim, estava inteiro e com motorista andando maciamente a não mais do que 70 por hora. Demorei-me um pouco enquanto contemplava o carro, liguei o pisca esquerdo, fiz uma ultrapassagem tranquila (e a buzinada que dei foi retribuída pelo motorista) e acelerei novamente, enquanto o par de faróis ficou cada vez mais distante até sumir em uma dessas curvas da estrada.
O Kadett Turim é um desses carros que tem uma história interessante pra contar. Nascido em 1990, sob os auspícios da Copa do Mundo de 1990 (sediada na Itália), o Kadett foi montado na base do modelo SL com alguns upgrades interessantes do GS (painel, aerofólio, bancos Recaro de padrão exclusivo de tecido), mas sem muito requinte (nem sequer contava com limpador e lavador traseiro, nem mesmo opcionalmente). Eram tempos de congelamento de saldos de poupança e crise financeira geral, a Chevrolet teve a ideia de criar uma série especial com o que tinha na prateleira, sem gastar tanto, sem ser algo displicente, na linha do Gol Copa, sucesso de 1982 que mereceu mais de um replay.
Mas não houve economia na produção de catálogos, como o que a Anfavea gentilmente disponibilizou em seu site tempos atrás, cuja íntegra temos o prazer de mostrar:
Não sei exatamente quantos foram vendidos (alguns foram sorteados pela Rede Globo, numa promoção do Faustão, há vídeos disso na internet), mas era um carro interessante, com pacote de estilo bem feito e com preço adequado àqueles tempos tão duros. Pode até ser que o Brasil não foi tão bem assim naquele torneio (quatro anos depois, ah, foi o Tetra!); no entanto, a GMB fez um gol de placa com esse Kadett.

