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sábado, 30 de outubro de 2021

Um Volkswagen para o verão (1972)

Uma antiga lenda americana conta que um sujeito muito rico gostou do simpático Fusca e resolveu comprá-lo. Mas esse milionário residia em lugar muito quente e como o Besouro não tinha ar-condicionado, alguém logo perguntou da dificuldade em guiar um pequeno Volks na canícula desértica. "Não há problema", disse o abastado, "tenho mais de um desses na geladeira, só tirar na hora de usar...". 

Se você tem um Volkswagen sedã, mas não uma geladeira suficientemente grande para armazená-lo (tampouco dinheiro para suportar uma conta de energia elétrica nesse atual cenário de escassez de água, recursos, paciência e outro recursos tão importantes), o mais correto seria instalar um belo condicionador de ar no bólido. Sim, ar-condicionado. Duvida? Não duvide, pois lá em 1972 isso já era possível, conforme se pode ler desta interessante matéria publicada na revista Auto Esporte, edição de agosto daquele distante ano:




Não é exatamente prático regular o ponto de ignição no cofre do Volks com um compressor instalado ao lado (o espaço, normalmente exato, fica mais acanhado ainda); porém, o conforto do condicionador de ar em um verão escaldante não tem preço... Bem, tem seu preço, claro, mas vale a pena, não acham?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O ar não ferve

Como nós bem sabemos, a Volkswagen começou a sua carreira no Brasil com os modelos feitos a partir do Volkswagen Sedan, mais tarde apelidado de Fusca. Esta plataforma, estranha para o brasileiro acostumado a "escola americana" (V8 na frente e a tração lá atrás), fez muto sucesso em nosso mercado. Talvez um dos motivos seja a adequação as rudes estradas da década de 50/60, uma vez que o asfalto não era tão comum quanto costuma ser hoje.

Os grandes modelos americanos (e europeus) sofriam nas estradas tupiniquins, e o sistema de refrigeração- em muitos casos inadequado a tórrida realidade brasileira- não dava conta de resfriar os motores... Somando-se ao fato de que não havia tantas oficinas mecânicas e a telefonia celular era uma ficção científica, era desejável ter um carro confiável.

Valendo-se destes argumentos, a VW brasileira sapecou o nosso mercado com uma série muito bem feita, que destacavam estes fatores, exemplo do comercial abaixo:

 

O ar não ferve, é verdade. Mas o preço de evitar a fervura era um bocado alto. Motores refrigerados a ar, em geral, não tem um desempenho tão alto. E a eficiência joga ao favor dos motores que usam radiador.

Na clássica escola do Fusca, motor e câmbio ficam atrás... (Foto: Fuscaclassic.blogspot.com)
Mesmo assim a Volkswagen brasileira ofereceu até 1974 uma linha grande de versões e carroçarias, todas seguindo a risca a cartilha do besouro. Da utiliária Kombi ao pretenso esportivo SP2, todos eram a ar.

Mas a concorrência não pensava assim. Desde seu lançamento, em 1969, o Corcel já se gabava do seu radiador selado. Dodge 1800 e Chevette também tinham seus motores refrigerados a água.

Ar versus água: o grande conflito publicitário da década de 60 e 70 (folheto corcel: ccal.com.br)
Em 1974 surge um carro diferente. Mas bota diferente nisso: o Passat. Ele, filosoficamente falando, é um anti-VW: tração dianteira e motor 1,5 litro arrefecido por água. Havia outras bossas, como suspensão McPherson, duplo circuito de freios (que depois virou obrigatório por lei), juntas homocinéticas (coisa que nem o Corcel dispunha). Mas ele ficou marcado mesmo pelo modo de resfriar o motor.

O Passat trouxe os ventos da mudança para a VW, embora o clássico air cooled continuasse a ser fabricado. Nas belas fotos, do site carroantigo.com, um belo TS 1976
O Passat não concorria diretamente com o Fusca. Perdoem-me os amantes do besouro, mas era crueldade comparar o moderno Passat ao veterano Volks Sedã. Este um símbolo de resistência; aquele era a última palavra em modernidade. Mas havia mercado para ambos, e cada qual abocanhava a sua fatia do mercado automobilístico de então.

A VW não usou mais o bordão "o ar não ferve" por óbvias razões. Mas nem precisava: o clássico motor a ar já havia conquistado seu lugar no mercado. E apesar do uso do outrora combatido radiador, o Passat foi um inegável sucesso, e abriu as portas para outros modelos refrigerados a água: Santana e Gol, por exemplo.

Contudo, por ironia do destino, o Passat morreu em 1989 - e os motores a ar resistiram, embora sem o mesmo mercado das décadas de 60-70, até fins de 2005...