Em 1984, a Volkswagen deu um passo bastante importante ao lançar o Santana em nosso mercado. Maior do que o Passat (a ponto de ser um Voyage de Itu, para os sarcásticos), o novo modelo - idêntico ao vendido na Europa - veio na medida para concorrer com o Monza, outro médio da Chevrolet que vendia muitíssimo bem. Inicialmente oferecido apenas na versão cupê (as portas traseiras demoraram uns meses pra chegar), o Santana era equipado pelo correto motor AP 1800 movido a álcool e a gasolina e oferecia três versões de acabamento.
A CS - confort silver - era a mais básica e dispunha de poucos opcionais, mas sem significar um carro terrivelmente mal acabado; a CG - confort golden - era a intermediária e poderia receber opções como o ar-condicionado; por fim, a CD - confort diamond - topo de linha e que poderia receber lavador de faróis (no melhor estilo do Corcel II) e muitos outros itens de de conforto que normalmente se espera em um veículo mais caro daquela época, até mesmo o travamento central - e pneumático - das portas já vinha de série.
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O Santana mais básico não tinha muitos adornos, mas ainda era bem aceitável e o acabamento interno convencia, notem o vidro traseiro basculante, coerente e necessário. |
O esmero no acabamento não era ao acaso: seu concorrente, o Monza, dispunha da versão standard e da SL/E; esta, a topo de linha, deixava algo a dever no acabamento geral (materiais, inclusive) e por isto era muito necessário que a Volks adotasse um padrão bom nas terminações e nos revestimentos para ter mais um argumento ao dono de Monza conhecer Santana. Mas havia um porém: o custo do novo Volkswagen não poderia ser muito alto, pois ai o interessado poderia partir para um Opala Diplomata (o flagship da marca americana naquele tempo) ou se endividar de vez e abraçar um Alfa Romeo 2300 (bem mais caro).
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A peça publicitária é de 1985, mas a preocupação com o preço era evidente: não poderia ser muito caro para não avançar nas faixas mais altas de preço da Chevrolet. |
O Santana vendeu bem, obrigado. E Quantum foi outro duro golpe na Chevrolet: a perua da fábrica alemã se gabava de seu projeto milhas mais moderno e eficiente, além do par extra de portas na traseira. A resposta da GMB poderia ter sido melhor, mas, como ninguém quis produzir em série a desejável Caravan com quatro entradas, trataram logo de apresentar a versão Diplomata, para que o comprador de peruas médias pudesse ter a opção de maior luxo e assim não pensar muito na concorrência.
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Apesar de Opala Diplomata estar disponível desde 1979, a Caravan demorou alguns anos para receber a versão mais cara de acabamento. Quantum foi decisiva para o upgrade, certamente. |
O contragolpe mais lógico contra a Chevrolet seria a Quantum CD, certo? Sim, tanto que a Volkswagen preparou alguns veículos pré-série e os exibiu em seus catálogos para o ano de 1986, todos digitalizados pela Anfavea, a quem sempre agradecemos:
Não é difícil de perceber que a Quantum CD oferecia o mesmo pacote de amenidades do Santana CD, a começar pelas rodas de liga leve, os tecidos mais nobres no estofamento, profusão de cromados, o lavador dos faróis (apenas nas unidades sem o ar-condicionado), vidros climatizados e outros detalhes. Era mesmo uma concorrente muito forte para a Caravan Diplomata, como podemos ver do próximo catálogo:
Disse antes que eram exemplares pré-série porque não há notícia de que alguma Quantum CD foi faturada em uma concessionária para um comprador comum; basta que se note o catálogo acima, no qual há a foto de uma perua sem encostos de cabeça no banco traseiro, equipamento indicado no anverso e que não estava presente na época das fotos. Típico dos pré-série.
Sim, a fabricante pensou muito seriamente em ter a Quantum CD e a anunciou em seus catálogos, mas não foi muito além disso. Há resposta pra isso? Bem, talvez a hipótese mais plausível aos meus olhos é a questão do custo, do preço final.
Não podemos esquecer que em 1985/1986 a economia ia muito mal. Basta lembrar que a inflação acumulada no ano de 1985 ultrapassou a barreira dos 240% e isso prejudicava sobremaneira a venda de tudo o que fosse planejado, cenário não resolvido pelo ambicioso Plano Cruzado. Vender carros era duro e carros caros era mais terrível ainda... Então, se a Quantum custasse muito caro, certamente não valeria a pena ser vendida.
Vou até a minha coleção de Motor-3 e folheio a edição de janeiro de 1986. Um Fusca álcool custava Cr$ 32.091.504,00 (digo por referência do veículo mais barato); o Santana CS quatro portas álcool seria seu por Cr$ 69.433.262,00; o Santana CG álcool quatro portas era vendido por Cr$ 86.599.158,00; o CD álcool custava Cr$ 102.277.981,00. A Quantum CS álcool sairia por Cr$ 75.116.587,00 e a CG álcool por 91.303.445,00. São preços de veículos sem opcionais.
Em uma conta bem simples, a Quantum custava seis milhões de cruzeiros a mais do que o Santana da mesma versão; se essa diferença for realmente a mesma, poderemos estimar que a Quantum CD sem opcionais sairia por algo perto de Cr$ 108.000.000,00, isto é, um pouco mais cara do que a Caravan Diplomata com motor de quatro cilindros a álcool (seria sua por Cr$ 107.293.820,00), embora mais barata do que a Diplomata com motor seis cilindros álcool (Cr$ 115.333.056,00).
Vou além: se a gente for ver quanto custavam as Caravan com motor de quatro cilindros álcool, a standard seria sua a partir de Cr$ 61.252.201, a Comodoro custava Cr$ 71.117.835,00. Grosso modo, as Caravan se equivaleriam às Quantum CS e CG, estas mais baratas (embora com ampla lista de opções). A Caravas Diplomata tinha um preço muito superior às demais, mas os equipamentos de série eram muitos, algo que a Quantum talvez não pudesse oferecer.
Fora que vender um carro custa dinheiro: ter uma opção no catálogo pressupõe custos e estoque. Talvez alguém fez um estudo de custos e de projeções de vendas e os números de estimativa de lucro não devem ter sido muito promissores; conforme o livro "Clássicos do Brasil - Opala", de Paulo César Sandler, a Chevrolet vendeu exatas 1.039 Caravan Diplomata em 1985 e outras 2.943 no ano seguinte. Num mercado retraído, talvez a Quantum CD não vendesse tudo isso...
Tudo isso são conjecturas de uma mente febril e estou muito aberto às críticas e aos comentários dos que me honram com sua visita. Mas, ao que me parece, o custo de fabricar uma Quantum CD não era vantajoso. E só em 1987 a Volkswagen, ao mudar a nomenclatura de toda a sua linha, finalmente trouxe o acabamento mais caprichado à perua, agora Quantum GLS. Então, se você ver uma Quantum CD por ai, não se assuste e nem duvide muito: talvez seja um pré-série sobrevivente...