Gosto muito de dirigir. Não muito de enfrentar o trânsito de minha cidade (que sofre de aterosclerose incurável) e muito menos de manobrar (passei na primeira tentativa no teste de volante na época da primeira habilitação, digo sem me gabar, mas tenho histórias de balizas não muito bem sucedidas). Mas são facetas inescapáveis de quem guia um automóvel numa cidade repleta de veículos e escassa de vagas, são sucessivas trocas de marcha feitas a cada volta em meu Uno Eletronic 1993, que tem uma terceira marcha manhosa e uma primeira arranhante.
Claro, apesar de o meu Fiat não ganhar concurso de precisão nas trocas de marcha - defeito folclórico que a Fiat eliminou de sua história, mas não do meu simpático carrinho -, sei que estou em um bólido muito privilegiado: não preciso me preocupar, por exemplo, em executar a dupla-debreagem, aquela técnica necessária para não moer engrenagens de câmbios não sincronizados (secos, como se diz na gíria). Quem andava pelas nossas estradas com um caminhão FNM, por exemplo, ficava tão perito nisso que até mesmo passava a sentir precisamente as rotações do motor e mudava as velocidades (e selecionava a velocidade do diferencial, inclusive) sem nem precisar chamar a embraiagem.
Porém, nesses dias de trânsito complicado e de estado de espírito não muito elevado fico a pensar o quão interessante seria ter um carro automático de quando em vez, pois essa história de que a transmissão que troca sozinha as marchas é ruim já virou folclore faz tempo... Hoje temos transmissões fantásticas, com ampla gama de velocidades e até mesmo contam com a possibilidade de programar eletronicamente as trocas, uma coisa que os pioneiros jamais imaginavam.
Sim, porque a incrível Enciclopédia do Automóvel (editada pela Abril na metade da década de 1970, ricamente ilustrada, habilmente traduzida do italiano e com verbetes relacionados à nossa história) nos conta que a primeira transmissão automática não é recente, pois Hermann Fottinger criou, em 1908, o primeiro acoplamento hidráulico para uso em embarcações, invento este aperfeiçoado pela Leyland, em 1926, para uso em seus ônibus. Em 1930, a Daimler trouxe a Fluid Flyweel, transmissão semi-automática para uso em veículos; no mesmo ano apareceu a Hydramatic - a mais prática e automática pra valer de todas -, e o resto é história...
História à parte, fico a pensar como seria ter um carro médio, um Monza por exemplo, equipado com a transmissão hidramática e até mesmo um ar-condicionado, isso num dia de tráfego intenso durante o verão. Certamente seria um repouso para a alma do motorista já exasperada pela fila interminável nas pontes que levam e trazem os circunstantes para a Ilha de Santa Catarina. Puxa, seria interessante e confortável, mas não vamos só imaginar, pois hoje é dia de ler a interessante avaliação feita para a edição n. 237 da revista Auto Esporte, na qual podemos ter uma ideia muito precisa de como é guiar um Monza sem o pedal da esquerda:




A vida, no fundo, é uma medalha com dois lados: um agradável e outro não tão positivo. O anverso do Monza automático é o óbvio conforto proporcionado pela transmissão; o reverso é a perda de desempenho (não tão enorme), o acréscimo no consumo e o fato de só dispor de três velocidades (suficiente para um motor com alto torque e baixa rotação, não tão legal para o interessante propulsor do Monza). Mas enquanto estou num engarrafamento daqueles, fico a pensar que seria muito bom ter um Monza desses para guiar durante essas horas do dia...