Se você gosta de automotores, está no lugar certo! Aqui nós nos dedicamos a resgatar um pouco da história dos automotores nacionais, com materiais e informações precisas.
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Tudo nesse mundo tem nome. Os animais, objetos tangíveis ou não, sentimentos, patologias, fenômenos naturais, etc, têm nome. Acredito que nós humanos temos a mania de pôr nome em tudo... Os carros têm nome, evidentemente. Alguns têm apelido, inclusive.
E até mesmo as cores dos nossos autos têm nome, acreditam? Leitor que não perde tempo com afirmações óbvias, não feche a janela do blog! Obviamente que as cores tem seu nome (cinza, preto, amarelo, azul, marrom, verde e por ai vai...). Acontece que o pessoal do marketing das empresas capricha no batismo das cores, criando chamativos nomes comerciais.
Tomarei por base a paleta de cores da linha Dodge, que conheço com um pouco mais de profundidade. São várias cores, apenas relaciono algumas das mais conhecidas.Tem cada nome interessante...
Amarelo Boreal: Não, não errei o nome da cor, tampouco o carro que ilustra este tópico. Este carro é amarelo! Ao menos a Chrysler vendia esta cor como sendo amarela...
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Charger R/T 1971 Amarelo Boreal (Foto: Roger Bester/QR 12/1970)
Azul Meia-Noite: Este R/T histórico (que descansa em paz no grande ferro-velho lá do céu) era desta cor. O nome da cor é quase poético, pois nem todas as noites têm céu preto...
O primeiro Charger R/T com revestimento vinílico do teto na cor branca (foto: QR, forum Museu Dodge)
Cinza Himalaia, Marrom Sumatra, Branco Madagascar, Castanho Trípoli e Vermelho Riviera: são exemplos de cores que remetem a lugares, como países, ilhas, praias... Uma verdadeira aula de Geografia.
Verde Jade, Verde Turmalina e Preto Ônix: Nomes de pedras preciosas (ou alguém pensou que o Verde Jade da linha 1976 era homenagem à Jade, personagem princiapl da novela “O Clone”?).
Dodge Dart Sedan 1981 Verde Turmalina (foto: Museu Dodge.blogspot).
Dodge Charger R/T 1980 Preto Onix (foto: Dodge News.com)
Verde Imperial, Vermelho Dinastia e Vermelho Tudor: rol exemplificativo de nomes que nos remetem à nobreza. Em suma: nomes metidos a besta... Mas que as cores são lindas, ah, isso elas são!
Um impecável Dodge Dart Sedan 1970 Verde Imperial. (Foto: showroomimagensdopassado.blogspot).
Charger R/T 1975 Vermelho Dinastia, que de tão lindo ganhou o posto de "Dodge do Ano", pelo Museu Dodge! (foto: Museu Dodge.com)
Outras cores mereceram um nome composto: Amarelo Enxofre Cítrico, Bronze Castanho Brilhante, Preto Baixo Brilho, Vermelho Médio Nascente, Vermelho Escuro Cardeal, etc. Não se trata de redundância, meus caros leitores. Quem nomeou a cor teve a preocupação de explicitar bem direitinho a nuance da cor.
Como disse no primeiro parágrafo, tudo nessa vida tem nome. Até mesmo as cores que pintaram os nossos Dodges nacionais.
Nesta semana, durante um chuvoso passeio noturno, avistei um Vectra verde no show room de um concessionário Chevrolet. Apesar da pouca iluminação, e da miopia precoce, notei os logotipos com o dizer “collection” na lateral do veículo.
O tal do Vectra Collection é uma série especial de 2.000 unidades criada pela GM pra comemorar o encerramento da produção do sedã. Pode-se escolher qualquer cor, desde que seja verde-lótus. Cá prá nós: um preto ficaria bem melhor. Mesmo assim, é um belo carro.
Quatro tomadas do mais novo candidato a carro raro (fotos: Divulgação/GM)
O site da montadora avisa que o carro foi equipado “com air bags frontais para motorista e passageiro, rodas de alumínio aro 17, transmissão automática inteligente de quatro velocidades, sensor de chuva, freios ABS com EBD (em bom português: freios equipados com sistema antitravamento das rodas integrado com um sistema eletrônico de distribuição de frenagem...), brake light, acabamento em couro, premium sound e antena shark”.
"Transmissão automática inteligente": será que ela passou por um teste de verificação do QI?
Os bancos têm o logotipo da série. (fotos: GM)
Além disso tudo, o carro vem com um caprichado manual do proprietário, numerado e com capa de couro. Preço: algo perto de 66 mil reais, fora um possível ágio, por tratar-se de um espécime raro em extinção. Vá lá, o Opala Collectors trazia até um VHS e uma carta assinada pelo presidente da montadora, mas o Vectra tem seus lá alguns atrativos. Afinal, é a ultima versão produzida, os últimos suspiros do quase extinto sedã.
A visão daquele Vectra verde deixou-me um pouco pensativo. Não sei se a melancólica noite chuvosa de terça-feira contribuiu para tanto, mas fiquei pensando: qual seria o paradeiro das últimas unidades de modelos nacionais produzidas? Fiz umas pesquisas e o resultado é o que eu apresento:
Monza: Este interessante GL de chapas CEK-8909 (chassi final n. 25838), foi último a ser fabricado. De acordo com o site “monzaclub.com”, o exemplar foi cedido ao extinto Museu da ULBRA- e estava com aproximadamente 340 km registrados em seu imaculado hodômetro. Depois do lamentável fim do fantástico museu (ele foi desmantelado por dívidas contraídas com a União), o veículo, de acordo com pesquisa no interessante aplicativo do Sinesp Cidadão, está emplacado na cidade de São Paulo/SP.
O GLS saiu de linha um pouco antes do encerramento da produção; a ideia da fábrica era empobrecer o modelo para facilitar a migração dos consumidores para o Vectra, novidade retumbante de 1996.
Se não me engano, esse Monza recebeu a cor Cinza Holbein Metálico.
Note que este GL, em especial, tem o painel do modelo GLS, provavelmente uma "sobra da linha de produção".
O último Monza (fotos: monzaclube.com)
Opala: Até pouco tempo atrás eu imaginava que o último Opala era o de chapas CTH-1992 (chassi de n. 07904), que também fez parte do Museu da Ulbra e que, posteriormente, foi devolvido à Chevrolet e posteriormente arrematado. É certo que ele foi o último a sair da fabrica, mas não foi o último efetivamente fabricado.
Porém, Alexandre Badolato, colecionador de automóveis (especialista na linha Dodge, um dos maiores entusiastas e entendedores sobre a fábrica neste Brasil), achou o verdadeiro último Opala e fez a gentileza de nos compartilhar as informações sobre este maravilhoso ICB-4410 (chassi final 08055):
Omega: O último fabricado foi este, com acabamento da versão CD e motor 4.1. Assim como o Opala e o Kadett, o Omega recebeu uma chapa especial bastante sugestiva: FIM-1998 (chassi com final 03524). O carro, assim como muitos outros do acervo da GM, estava no Museu da ULBRA e atualmente está emplacado em São Paulo/SP.
A última unidade de um dos melhores automóveis nacionais (foto: fórum Opaleiros do Paraná)
Kadett: Do site do Armazém W70, loja que, na época, vendeu o carro, obtive estas informações:
"Este exemplar foi a última unidade a deixar a linha de montagem da General Motors do Brasil e foi destinada ao Museu GM conforme consta em sua nota fiscal emitida para a própria GM em 14/10/1998. Este veículo ficou exposto junto com o acervo da GM no conhecido Museu da Ulbra, localizado no estado do Rio Grande do Sul. Apesar de ter rodado apenas nas dependências internas da Ulbra o veículo recebeu placas especiais para caracterizar o fim da produção do modelo: END-1998. Trata-se de um modelo GLS com apenas 697,9 Km(...)."
Atualmente está emplacado em Lins/SP.
Belíssimo Kadett, talvez o menos rodado do Brasil. (fotos: Armazém W 70)
Alfa Romeo 2300: Havia uma história de que o último 2300 foi montado em 1992 especialmente para Oscar Niemayer. O genial arquiteto teria pedido um Alfa 2300 Ti zero naquela data, e a FIAT teria montado um zerinho pra ele, não obstante a produção ter se encerrado há mais de quatro anos... Consta que um monobloco virgem foi localizado- e recebeu diversas peças novas de concessionários. A montagem da carroçaria teria sido feita no departamento de protótipos da montadora mineira.
Roberto Nasser, jornalista automotivo, investigou estas informações. A história do Alfa ’92 até tinha razão de ser, mas não foi o que realmente aconteceu. Ocorre que Niemayer ganhou em 1992/93 uma das últimas unidades fabricadas- e não ganhou um Alfa efetivamente novo, 0km. Nasser investigou o caso mais profundamente, e descobriu que o chassis do Alfa de Niemayer era de final 3985, que não foi efetivamente o último produzido.
O site webmotors localizou em 2007 o último 2300 fabricado. Seu chassis tem final 4024, fabricado em 1987 por encomenda do empresário Pedro Grendene. Atualmente o Alfa está no Rio Grande do Sul, impecável e com cerca de 120 mil quilômetros rodados.
Felizmente o Alfa está muito bem conservado (fotos: site webmotors)
Willys Itamaraty Executivo: O carro é um dos mais raros produzidos no país. Dos 22 fabricados, sabe-se o paradeiro de 19. Segundo o site : ruralwillys.tripod.com/aerowillys, o último a sair da fábrica foi o de nº 14.
Se um Itamaraty é raro de se ver, um Itamaraty Executivo é mais raro ainda... O que dizer, então, do último Executivo produzido pela Willys? (foto: ruralwillys.tripod.com)
Pode parecer estranho o chassis 14 ser o último a ser fabricado, mas ocorre que os autos saiam da fábrica sem que se respeitasse a ordem numérica. Segundo relatos, o Executivo Standard número 14 teria sido o último fabricado antes da venda da Willys e que teria ficado "escondido" na fábrica por alguns anos até ser finalmente vendido a um particular. O último exemplar está nas mãos de um colecionador. E como se vê pela foto, está impecável.
Dodge Dart: O último automóvel da linha Dart foi este cupê 1981, monobloco nº 93.008. Vale lembrar que este carro saiu da mão da Volkswagen Caminhões. A Chrsyler Brasil já havia sido vendida pra montadora alemã.
O colecionador Alexandre Badolato, por volta de 2006, encontrou o carro num estado triste, praticamente semidestruído.
O carro antes de ser submetido ao processo de restauração (foto: Fórum Museu Dodge)
Acontece que o 93.008 participava de shows de exibição automobilística, por isso estava tão judiado. Felizmente, um primoroso processo de restauração devolveu ao último Dart toda sua originalidade. Parece que o cupê saiu da fábrica ontem!
Encontrar Dodge 1981 não é tarefa das mais fáceis. Ver um Dodge preto 1981 (LX-9, na plaqueta de identificação) é tremendamente raro. Como já abordei em outras postagens, em 1981 os Dodges não tinham mercado, venderam muito pouco naquele derradeiro ano. Por isso, este Dart tem um valor histórico muito relevante.
Belíssimo trabalho do Alexandre Badolato na preservação deste Dart! (fotos: Museu Dodge e Fórum Museu Dodge)
Achar informações sobre as últimas unidades produzidas não é tarefa fácil. As fábricas nacionais parecem não se importar muito com sua história- e é difícil mesmo encontrar a última unidade produzida. Se você souber do paradeiro de mais algum dos últimos, entre em contato!
Faço questão de publicar esta lindíssima foto deste Impala 1962, extremamente novo. Posso parecer um pouco reacionário ao afirmar, mas não faz mal: não se faz carro como antigamente!
As linhas fluidas deste sedan são muito elegantes- e o carro é muito confortável. É um daqueles autos que têm o "conforto dinâmico". São confortáveis não só por causa do banco ou da forração das portas, mas também por conta do conjunto suspensão/carroceria.
Parece que saiu da fábrica ontem... (Impala exposto no 19º Encontro Sul-Brasileiro de Veículos Antigos)
Esta unidade está equipada com um seis-cilindros, o motor mais básico da linha. Mas não faz mal: Impala é Impala, não importa o motor!
Assim como os escritores e jornalistas, os blogueiros vivem de seus leitores- e pedido de um leitor é uma ordem! Aproveitando as férias acadêmicas, resolvi passar pela Biblioteca Pública em busca de informações do concessionário Chrysler da região, Meyer Veículos.
Pilhas e mais pilhas de jornais O Estado (que não existe mais...) foram consultadas. Uma tarde inteira e um par de luvas descartáveis (pra evitar danos ao papel já fragilizado pelo tempo) gastos nesta epopéia. E o resultado é o que segue:
Não consegui descobrir a data precisa em que a Meyer Veículos abriu suas portas- tampouco quando fechou. O escasso tempo não me permitiu uma busca mais apurada, porém acredito que a revenda abriu suas portas entre 1968/69. Confirmarei a informação posteriormente, mas ao consultar jornais de 1970 em outra oportunidade, verifiquei anúncios da Meyer.
A Meyer Veículos Ltda., fundada pelo Sr. Márcio Meyer, respondia pela venda dos Chrysler na região da Grande Florianópolis. Curiosamente a Meyer não ficava na porção insular de Florianópolis. A revenda foi instalada na parte continental da capital catarinense, na Avenida Fulvio Aducci, 597. Hoje, não há nenhum sinal de que um dia foram vendidos Dodges por lá... Antes, era só discar o (0482) 44-1165, 44-1169, 44-1267 ou 44-2992 e pedir informaçõs sobre seu Dodge zerinho...
Vai um carro usado aí? (Jornal O Estado,1976)
A Meyer era bastante versátil em suas vendas, não ficando adstrita aos Mopars nacionais. Produtos náuticos também eram negociados pela revenda. Pode parecer até estranho pensar num "Nautical Shop" numa revenda Chrysler (e é estranho mesmo!), porém devemos ter em mente que Florianópolis é um município litorâneo, inclusive com a sua porção insular.
Lanchas e Dodges eram vendidos pela Meyer (Jornal O Estado, 02/12/1976)
Em 1979, a Meyer criou o Consórcio Dodge- Polara. Como se vê, muitos felizes proprietários foram contemplados com seu Dodginho, como se vê na matéria abaixo:
Jornal O Estado, 1979.
Abaixo, outros anúncios da revenda:
Jornal O Estado, 12/1978.
Jornal O Estado, 12/1976.
Juntamente com a Meyer, as demais revendas em Florianópolis eram a Distribuidora de Produtos Nacionais Ltda - Dipronal e Florisa (Ford); Amauri Veículos e Koesa (VW); Phipasa (Fiat); Hoepcke Veículos (Chevrolet); J Vieira e Silva (Toyota); Gelcar (Gurgel); DVA (Mercedes-Benz); Rodomar (Caminhões Fiat). Destas, só a DVA e a Phipasa ainda existem...
PS: Se alguém tiver informações sobre a revenda, por favor entre em contato comigo (douglasantunespacheco@gmail.com).
Em continuação ao post anterior, vamos ver quais são os valores atualizados da linha 1971 da Chrysler:
Assim como os outros valores, a tabela é corrigida com base no IGP-DI da FGV.
Pra comparar: O carro mais caro da tabela 1971 é o Landau LTD com câmbio automático e direção assistida: Cr$ 52.682,00, atuais R$ 188.286,73. O Fusca 1300, à época chamado oficialmente de Volkswagen Sedan 1300, era seu por Cr$ 12.866,00- R$ 45.983,39 reais de hoje.
O Opala SS 1971, concorrente direto deste deslumbrante R/T, custava Cr$ 28.900,00- R$ 103.289,29 atualizados (foto: CCAL)
Se alguém perguntar quanto custava um Dodge 1971, você já sabe o que falar... E pensar que em 1981, um R/T '71 em ótimo estado custava menos que 5 mil reais atualizados...
Depois de um período de inverno neste blog (a crônica falta de tempo que assola a humanidade...), resolvi fazer uma pequena viagem ao ano de 1981. Todo louco por carro antigo fica pensando: ah, quanto será que custava um carro desses na época? Será que são muito mais caros do que hoje?
Pra lembrar que há exatos 30 anos a linha Chrysler saiu das revendas, vamos imaginar que estamos em seu concessionário Chrysler preferido (Meyer Veículos/Florianópolis-SC, no meu caso), para saber o quanto que você teria de desembolsar para comprar um Dodge Okm. Com a ajuda da Calculadora do Cidadão, disponível no site do Banco Central, é possível saber o valor corrigido dos Dodges:
Preços atualizados pelo Indície IGP-DI da FGV.
Claro que naquela época havia uma maldita inflação que mudava os preços com a velocidade de um V8 embalado... Os carros grandes usados, de modo geral, valiam tremendamente menos do que custaram quando novos. Como já postei em outra oportunidade, a desvalorização era terrível - e isso prejudicou o mercado dos carros grandes: um Dodge Dart 1974 sedã custava 22 mil cruzeiros, R$ 2.668,31 atuais...
Apenas como referência, o carro mais caro vendido em 1981 era o Puma GTB S2, que custava a bagatela de Cr$ 1.172.544,00 (R$ 142.214,08). Daqueles de produção "mais regular", o menos barato era o Landau LTD, a venda por módicos Cr$ 1.028.970,00 (R$ 124.800,45 atuais). O Fusca 1300 era o mais barato dos 0 Km: Cr$ 254.440,00, atuais R$ 30.860,21.
Se o Charger R/T efetivamente fosse disponível para o ano de 1981 - e nenhum foi fabricado no ano fiscal de 1981 - concorrente direto deste R/T, o Opala SS6 (que saiu de linha em 1980, como o esportivo Dodge), custava CR$ 611.619,00 - R$ 74.181,30 atuais (foto: museudodge.com)
Evidente que estes valores são estimativos, e devemos considerar uma grande série de variáveis... Basta ver que o valor muda substancialmente conforme o índicie de correção a ser utilizado. Bem, agora se alguém perguntar o quanto custava um Dodge 1981, você já sabe responder... Bom mesmo é sonhar com um stand cheio de Dodges novinhos em folha- e poder levar todos!!!
PS: Esta postagem foi corrigida em 01/01/2012, por conta de algumas incorreções na conversões dos valores. O índice de correção adotado por mim neste blog é o IGP-DI da Fundação Getúlio Vargas- FGV. A conversão dos valores pode ser feita gratuitamente no site do Banco Central do Brasil, no aplicativo "Calculadora do Cidadão".
Ford Galaxie 1966/67 (Foto: Jean Solari-QR 12/1966)
Em outras postagens eu já me referi ao confortável Galaxie. Não creio que outro adjetivo seja melhor empregado ao se definir o sedan da Ford do que confortável.
Tive a oportunidade de andar num destes (um LTD 1977), e afirmo que até hoje eu não conheci carro mais confortável que ele... O conforto e o silêncio interno do bicho me deixaram sérias saudades...
Hoje vamos falar de algo inevitável para todos: a morte. Afinal, é verdade que todos um dia se vão... E com os automóveis a coisa não é lá muito diferente. Nossos amados Dodges morreram em 1981, há quase três décadas. Antes que alguém me pergunte se foi de morte morrida ou matada, já adianto: foi um pouco de cada, como já bem sabemos. E não foi à toa que os ferros-velhos ficaram abarrotados com os carrões daqueles tempos, inclusive os nossos amados e idolatrados Dodges...
Tudo começou a acabar (?!) em 1973. Estava tudo tão lindo, tão mágico e perfeito no mundo automotivo. A gasolina era farta, e era despejada nos tanques dos carros a preço módico. Mas...
Nos EUA a situação também foi dificil, tanto que não foram raros os períodos de desabastecimento. (foto: vivercidades.org.br)
A tão comentada crise do petróleo foi desencadeada por um aumento repentino- e expressivo- do preço do óleo. Imagine-se nesta cena: você, dono de um carro que percorre poucos quilômetros com 1000 ml de gasolina, chega ao posto e vê que o preço quadruplicou em um curto espaço de tempo.
O paroxismo do problema chegou em 1977: já pensou chegar ao seu posto de confiança pagar Cr$ 7,00 (R$ 5,78) por um mísero litro de gasosa? Este era o preço (devidamente corrigido) da gasolina em 02/1977:
A economia era a principal preocupação daquela época: afinal, descobriu-se que o petróleo não era infinito (foto: reprodução da capa da Quatro-Rodas nº. 199, de Fevereiro de 1977)
Façamos as contas: para encher um tanque de 62 litros do Dart era necessário pagar Cr$ 434,00 (R$ 358,36). Considerando uma média global otimista de seis quilômetros por litro, percorriam-se 372 km com este valor. (Hoje, se eu abastecesse num posto concorrido que tem por minhas bandas, o tanque de 62l do Dart me custaria algo em torno dos 149 mangos...). Aí o fenômeno da desvalorização foi inevitável, e os preços não demoraram muito pra despencar... Um Dart 1970 novo custava NCr$ 25.338,00 (R$ 105.299,19 corrigidos pelo IGP-DI da FGV). Dez anos depois o Dodge 1970 usado custava menos de Cr$ 23.000,00 (surreais R$ 5.689,10 corrigidos pelo IGP-DI da FGV). Em termos mais diretos: o carro teve seu preço quase VINTE vezes menos do que valia enquanto novo...
Se servir de alento ao leitor indignado, lá vai: a desvalorização atacou todos os carros full size de nosso mercado, quer seja novos ou usados. Nacionais ou estrangeiros. Qualquer carro que fazia menos do que 6 ou 7 km/l era tachado de beberrão, tornando-se obsoleto, até ultrapassado.
Já os pequenos eram valorizados (ou menos desvalorizados, dependendo do ponto de vista): um Volkswagen Sedan 1300 1970 custava Okm NCr$ 12.671,00 (R$ 44.491,16 ). Dez anos depois o mesmo Fusca 1970 custava aproximadamente Cr$ 40.000,00 (quase R$ 10.000,00). Descontando “os quase”, o Dart 1970 custava a metade do que valia um Fusca... Os tempos eram outros: em 1980, um Fiat 147 standart zero custava Cr$ 140 mil (R$ 34.629,32) - um pouco mais do que valia um R/T de 1977! Golpe de misericória: um R/T 1971, da primeira leva, custava menos de CR$ 40.000,00 (quase R$ 10.000,00). Tempos difíceis.
A Dodge não ficou inerte perante o mercado, e passou a se preocupar com a economia. Com a linha ’76, a Dodge matou vários modelos que não vendiam tanto (como, por exemplo, o Dodge SE e o Dodge Gran Cupê). Sem falar no fuel pacer system, inovação de 1974:
Economia à vista: sinal dos tempos... (foto: reprodução anúncio Chrysler do Brasil- dodgenews.com.br)
O tal do pacer system não era exatamente um economizador, mas um mecanismo que apontava os excessos que o pé direito impunha ao pedal do acelerador. Era como aquele amigo chato que adora dar sermão sobre as calorias enquanto nos servimos exageradamente numa churrascaria rodízio, traquitana com função de dedo duro, como se disesse "se fizer menos de cinco com um litro não diga que não avisei..."
Em 1977 a Chrysler tratou de deixar o Charger R/T menos exigente na escolha do combustível: o fabuloso 318PS, o V8 do bicho, passou a se alimentar com gasolina comum ao invés da cara - e demasiado escassa - gasolina azul. No ano de 1979 vieram as tão famosas alterações de estilo, que deram uma renovada na linha, além de um detalhe interessante: os tanques passaram a ser de 107 litros, algo muito desejável numa época em que os postos fechavam nos finais de semana. Sim, os postos fechavam nos finais de semana...
Mesmo com as alterações, os Dodges foram lentamente mortos pela VW. Para bem da verdade, as vendas estavam ruins, números magros que não estimulavam muito - a VW queria mesmo era fazer caminhões, como sabemos.
Mas, também é verdade, os carros da Chrysler mereciam um final mais digno... Os últimos eram “marcados” com o sinete da VW Caminhões ao invés do pentastar. Em 1981 usaram os revestimentos da linha Volks- e as cores também. Tempos difíceis...
Como era barato ter Dart naquela época (foto: Heitor Hui/QR)
Nosso mestre Expedito Marazzi escreveu, lá em setembro de 1980, uma reportagem sobre os carrões sem valor; e o Dart Cupê 1972 (com frente do modelo 1975) estampou a reportagem. O dono ofereceu o Dart por simbólicos Cr$ 15 mil (R$ 2.277,92) e disse que pagou módicos seis mil cruzeiros (R$ 987,10!) pelo carro. Outro anúncio, que transcrevo abaixo, é triste, mas não menos interessante:
“Vende-se por CR$ 38.000,00 (R$ 5.770,73) um equipamento de som da marca Bosch em perfeito estado de conservação. Acompanha um Dodge Dart branco, ano 1974, com motor e pintura em bom estado”
Foto: Heitor Hui/QR
Pelo que se vê, nossos Dodges morreram sem muita pompa, não eram heróis naquela época de petróleo caro... E sabe como é, meus amigos: a desvalorização foi muito cruel com o preço do carro inteiro, mas não com as peças de reposição. Muitas vezes o preço dos equipamentos (rodas de liga, equipamento de som, ar-condicionado) valiam mais que o carro!
Logo, era economicamente mais vantajoso desmontar um Dodge e vendê-lo aos milhões de pedacinhos do que fazer um reparo mecânico. Apesar de contar com uma mecânica forte, qualquer motor precisa de manutenção. E as autopeças na década de 80 não eram nada baratas - outro fator que pesava muito àquela época. Tal situação demorou muito para acabar. Hoje um Dodge é perfeitamente colecionável, e valem todos os esforços para trazer um bom Charger R/T ao estado de zero-quilômetro, no tempo em que a gasolina era farta - e a diversão também.