quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O ar não ferve

Como nós bem sabemos, a Volkswagen começou a sua carreira no Brasil com os modelos feitos a partir do Volkswagen Sedan, mais tarde apelidado de Fusca. Esta plataforma, estranha para o brasileiro acostumado a "escola americana" (V8 na frente e a tração lá atrás), fez muto sucesso em nosso mercado. Talvez um dos motivos seja a adequação as rudes estradas da década de 50/60, uma vez que o asfalto não era tão comum quanto costuma ser hoje.

Os grandes modelos americanos (e europeus) sofriam nas estradas tupiniquins, e o sistema de refrigeração- em muitos casos inadequado a tórrida realidade brasileira- não dava conta de resfriar os motores... Somando-se ao fato de que não havia tantas oficinas mecânicas e a telefonia celular era uma ficção científica, era desejável ter um carro confiável.

Valendo-se destes argumentos, a VW brasileira sapecou o nosso mercado com uma série muito bem feita, que destacavam estes fatores, exemplo do comercial abaixo:

 

O ar não ferve, é verdade. Mas o preço de evitar a fervura era um bocado alto. Motores refrigerados a ar, em geral, não tem um desempenho tão alto. E a eficiência joga ao favor dos motores que usam radiador.

Na clássica escola do Fusca, motor e câmbio ficam atrás... (Foto: Fuscaclassic.blogspot.com)
Mesmo assim a Volkswagen brasileira ofereceu até 1974 uma linha grande de versões e carroçarias, todas seguindo a risca a cartilha do besouro. Da utiliária Kombi ao pretenso esportivo SP2, todos eram a ar.

Mas a concorrência não pensava assim. Desde seu lançamento, em 1969, o Corcel já se gabava do seu radiador selado. Dodge 1800 e Chevette também tinham seus motores refrigerados a água.

Ar versus água: o grande conflito publicitário da década de 60 e 70 (folheto corcel: ccal.com.br)
Em 1974 surge um carro diferente. Mas bota diferente nisso: o Passat. Ele, filosoficamente falando, é um anti-VW: tração dianteira e motor 1,5 litro arrefecido por água. Havia outras bossas, como suspensão McPherson, duplo circuito de freios (que depois virou obrigatório por lei), juntas homocinéticas (coisa que nem o Corcel dispunha). Mas ele ficou marcado mesmo pelo modo de resfriar o motor.

O Passat trouxe os ventos da mudança para a VW, embora o clássico air cooled continuasse a ser fabricado. Nas belas fotos, do site carroantigo.com, um belo TS 1976
O Passat não concorria diretamente com o Fusca. Perdoem-me os amantes do besouro, mas era crueldade comparar o moderno Passat ao veterano Volks Sedã. Este um símbolo de resistência; aquele era a última palavra em modernidade. Mas havia mercado para ambos, e cada qual abocanhava a sua fatia do mercado automobilístico de então.

A VW não usou mais o bordão "o ar não ferve" por óbvias razões. Mas nem precisava: o clássico motor a ar já havia conquistado seu lugar no mercado. E apesar do uso do outrora combatido radiador, o Passat foi um inegável sucesso, e abriu as portas para outros modelos refrigerados a água: Santana e Gol, por exemplo.

Contudo, por ironia do destino, o Passat morreu em 1989 - e os motores a ar resistiram, embora sem o mesmo mercado das décadas de 60-70, até fins de 2005...

2 comentários:

  1. Não que eu seja contra os motores de refrigeração líquida, mais facilmente enquadráveis nas atuais normas ambientais em função da maior facilidade em se promover um controle térmico com precisão (e se adaptar melhor ao etanol e ao gás natural), mas ainda tenho um carinho especial pelos motores refrigerados a ar.

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    1. Exatamente! Você definiu com muita propriedade: os motores de refrigeração a ar tem suas desvantagens, mas eles têm muitas virtudes. A VW do Brasil deve muito a eles; a sua imagem de confiabilidade e robustez nasceu dos seus boxers aircooled.

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